Eu, cheio de razão (até começar a fazer perguntas)
- Sílvia Martins

- 9 de abr.
- 4 min de leitura
Há pessoas que não se questionam. Eu, durante muito tempo, também não. Ou melhor — questionava tudo… desde que não me questionasse a mim.
Estava, como se costuma dizer, cheia de razão.
E isso, durante algum tempo, foi uma tranquilidade invejável. É confortável, eficiente e poupa imenso tempo em crises existenciais.
O problema das respostas certas
O mais curioso é que, com o passar dos anos, percebi uma coisa ligeiramente incómoda: não gostava das respostas. Ou pior — não gostava delas porque andei anos a viver de respostas que nunca questionei. Respostas herdadas, copiadas, bem-comportadas. Respostas que até resultavam… até deixarem, discretamente, de resultar. E ninguém avisar.
Há uma certa elegância em viver sem se questionar. Uma leveza, até. A vida simplifica-se quando não se mexe muito nas coisas. Faz-se o que se aprendeu, repete-se o que se viu, evita-se o desconforto de pensar “e se isto não for bem assim?”.
É quase uma coreografia. E nós, disciplinados, não falhamos um passo.
Quando deixa de encaixar
Mas há um pequeno detalhe — quase insignificante: a vida começa a parecer vivida por alguém que não somos bem nós.
Nada de dramático. À volta, tudo parece no sítio. Só não encaixa. Como aquela camisola linda na montra… que, em ti, decide assumir uma carreira alternativa como saco de batatas.
As perguntas que ninguém quer fazer
E é aqui que entram as perguntas. Não aquelas perguntas bonitas de citações inspiradoras. Falo das outras. As que chegam sem avisar e não pedem licença:

- Quem é que está a escolher isto?
- Desde quando é que isto é verdade?
- O que é que eu estou a evitar ver?
- E a minha favorita (porque raramente falha): - O que é que eu já sei, mas continuo a fingir que não sei?
Silêncio.
Aquele silêncio ligeiramente desconfortável...em que, de repente, percebemos que a conversa ficou séria e que, desta vez, não há saída elegante nem piada que nos salve.
É neste silêncio que, normalmente, começa o trabalho a sério.
O ponto onde já não dá para voltar atrás
Há um padrão curioso — e profundamente humano: questionamos tudo à nossa volta com uma facilidade admirável… menos aquilo que sustenta quem estamos a ser. Aí, de repente, tornamo-nos estranhamente leais. Quase protectores. Como se certas partes de nós viessem com um rótulo invisível que diz: “Frágil. Manusear com cuidado”
E percebe-se porquê. Questionar, a sério, não é confortável. Não é uma conversa simpática. É um abalo. Mexe no corpo, aperta o peito, desmonta certezas. E. há ali um momento em que já não dá para voltar atrás — porque já viste.
E depois de ver… não há como não ter visto. (Se houvesse, provavelmente já tínhamos inventado uma aplicação para isso)
As máscaras que aprendemos a usar
Há uma coisa curiosa nas perguntas certas: não nos dão respostas — tiram-nos as máscaras.
Porque, na maioria das vezes, aquilo a que chamamos de “eu” é só um conjunto de adaptações bem-sucedidas. Foram úteis. Deram resultado. Mantiveram-nos seguros.
O problema é que cresceram tanto que começaram a passar por identidade.
E ninguém questiona uma identidade sem um ligeiro abalo existencial. Questionar uma identidade dá vertigens. É como tirar o chão só para confirmar se ainda sabemos estar de pé.
Mas, de vez em quando, a vida faz a pergunta na mesma:
- “E se isto não fores tu…E se for só o que aprendeste a ser?”
E pronto. A partir daí, já não há grande forma de fingir que não se ouviu.
A verdade (que aparece sempre na pior altura)
Questionar não é sobre encontrar respostas rápidas. É sobre ganhar intimidade com a verdade — mesmo quando ela não é conveniente, nem elegante, nem particularmente simpática.
Sobretudo quando não é simpática. (A verdade tem muito mau timing)
As perguntas que mudam tudo
Há perguntas que mudam o rumo de uma vida inteira. Não porque tragam algo novo, mas porque iluminam aquilo que sempre lá esteve.
- E se não tiver de ser assim?
- E se eu puder escolher diferente?
- E se o problema não for o outro? (Esta custa sempre um bocadinho mais – será porquê?)
E depois há aquela pergunta mais silenciosa, mas decisiva:
- Estou a ser honesto comigo?
Não honesto para parecer bem. Honesto a sério. Daquele que não precisa de aplauso, nem de justificação.
O lado libertador de ser responsável
O curioso é que, quando alguém começa a fazer estas perguntas, não fica mais perdido, fica mais responsável. E isso, ao contrário do que se pensa, não pesa. Liberta.
Porque deixam de existir desculpas elegantes. E passam a existir escolhas.
E escolhas, quando são conscientes, têm uma coisa muito bonita: aproximam-nos de nós mesmos.
Não da versão ideal, trabalhada, “como deve ser”. Mas da versão verdadeira. Aquela que não precisa de esforço para existir — só de autorização.
Voltar a nós
Questionar é isso: um acto de autorização interna.
Não para mudar tudo de um dia para o outro e colocar a vida do avesso. (Também não é preciso dramatizar e vamos com calma). Mas para parar de viver em piloto automático. Para interromper padrões que já não servem. Para deixar de dizer “é assim que eu sou” àquilo que, na verdade, nunca chegaste a escolher — só te habituaste.
No fundo
Questionarmo-nos não é um exercício de dúvida. É um exercício de honestidade.
E talvez seja isso que nos salva de viver em repetição, de cumprir um guião que não escrevemos… mas que decorámos com toda a dedicação.
Não para termos todas as respostas. Mas, pelo menos, para garantirmos que as perguntas são nossas.
E talvez a verdadeira pergunta seja…
Porque há muitas formas de viver. Mas poucas coisas são tão perigosas — e tão silenciosas — como viver sem nunca parar para perguntar:
“Espera… isto sou eu?”
E talvez a pergunta mais importante não seja quem somos.
Mas sim… quem nunca chegámos a questionar.
Para levares contigo
Questionar não é duvidar de quem somos.
É parar de ser quem nunca escolhemos ser.
Se chegaste até aqui, já começaste.
E, às vezes, é só isso que é preciso.
Agora… não fujas das perguntas.



